Arranquei cada preocupação, cada aflição, cada medo, como se fossem cascas de cortes ainda em estado de cicatrização. Do tipo em que, quando arrancada, puxa junto um pedaço de pele.
Sangra e arde por um tempo. Logo mais, outra casca se formava.
E eu arrancava de novo e de novo. Até que a casca sumisse e, em teu lugar, surgisse aquela mancha vinho, parecida com uma cicatriz hipertrófica.
Hoje, mesmo com problemas a minha volta, me sinto livre. Não me incomoda.
Dificilmente são problemas decorrentes de atos meus.
Ando onde quero, faço o que preciso, e ainda descubro outras maneiras de me sentir bem.
Gosto de poucas pessoas. E das poucas que gosto, há poucos em quem confio. Sem desmerecer a amizade, óbvio.
Fiz alguns testes, perdi algumas pessoas, perdi coisas, perdi. Não me abate. Pra cada perda, vejo um aumento de espaço. E estendo, cada vez mais, meu caminhar pela liberdade.
No fim, coisas que construímos, podem ser destruídas.
Comecei pelas cicatrizes, e nos próximos meses, destruí algumas das coisas que faziam-me sentir forte, sentir bem, sentir seguro.
Assim, então, percebi: não podem haver abrigos na liberdade. Se houverem abrigos, há aflição. E se há aflição, não há liberdade.
E se eu posso estar seguro e ser forte apenas com o que sou, então, há liberdade.
Se eu posso caminhar por espaços fechados, ou abertos, sem me sentir ameaçado por obstáculos, então há liberdade.
Se posso tornar os obstáculos, parte de onde caminho, então há liberdade.
Talvez, nem seja esse o nome. Mas não me importo.